rafaelkafka2011

Walquíria.

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Quando tudo isso começou – estudar para a prova de um concurso público – eu já estava havia dois anos longe do primeiro e único teste do tipo feito por mim em minha existência de gente pobre metida avessa a organização para estudos. Parecia que tudo o que fiz no ano de 2015 para me tornar professor de uma rede municipal de um município caótico do estado do Pará havia fugido de mim e se não tive os mesmos ataques de pânico sentidos quando ouvia falar em concurso público dessa vez eu me sentia ainda profundamente incomodado, pois teria de abrir mão de uma dinâmica existência assumida há poucos meses e que muito me agradava.

Quando tudo isso começou, eu estava lendo uns três livros ao mesmo tempo e indo ao cinema praticamente todo dia. Ou mesmo a shows gratuitos que ocorreram em Belém pelo período. Eu me sentia inebriado pela arte e me sentia acima do contexto provinciano de uma cidade repleta de estatísticas negativas e perigos de morte. Ia ao trabalho lendo um livro, almoçava lendo o mesmo livro, saía do trabalho lendo outro, via algum filme, participava de algum debate, voltava para casa lendo outro livro e muitas vezes ia dormir tarde ainda lendo alguma coisa ou vendo algum outro filme. Minha mente estava a mil.

A sensação era boa e o edital da prova de um novo concurso público veio em um momento muito indevido. Teria de abrir mão de minhas leituras ou mais um pouco do meu sono para estudar para essa prova. Algo em mim me dizia também que eu poderia simplesmente fazer a prova sem estudar e confiar em meu intelecto, o qual segundo algumas fontes confiáveis é razoável.

Não lembro ao certo quando decidi pedir a Walquíria para estudarmos juntos. Mas hoje vejo que aquilo foi um inteligente pedido de socorro. O ritmo incessante vivido por mim começava já a afetar meu organismo, meu sono, meu trato com alunos. Eu precisava urgentemente relaxar e penso que pedi ajuda a uma das pessoas que mais amo para não surtar e ver algo importante para mim fugir de meu alcance.

Essa rotina de estudarmos umas três a quatro vezes por semana dura já um mês. Em menos de três semanas teremos a prova. Em alguns momentos, estudar com Walquíria mexeu com minha ansiedade, pois decidi deixar meu tempo dependente ao dela e isso afetava profundamente a minha experiência temporal em diversos pontos. As múltiplas leituras passaram a ficar desordenadas e para tornar tudo mais complexo passei a participar de um movimento grevista em Ananindeua em luta por melhorias salariais e de condições de trabalho. A greve e Walquíria muito me ensinaram.

Aquela me fez ver que os livros são bem interessantes, mas que apesar de ser tentador me afundar neles por horas a fio eu preciso de ações concretas em minha vida como educador e homem para ser uma pessoa plena. Ver-me engajado em uma luta política me fez me sentir útil à sociedade e sem temor para defender aquilo em que acredito. Para meu desespero, porém, a saudade dos alunos aumentava e meus livros ficavam cada vez mais largados. Enquanto isso, Walquíria me questionava seriamente por que eu não me decidia a focar somente em uma leitura por vez.

Esta última me fez entender que outras leituras são tão importantes quanto a de livros bons. Relendo sobre diversos documentos educacionais essenciais para a prática docente, pude entender melhor a constante guerra política a qual se configura no ato de ministrar aulas. Pude entender como a escola deveria ser uma construção coletiva e que por não se configurar nisso cada vez mais seus muros crescem e a educação é sucateada a olhos vistos. Nesse sentido, recuperei a dimensão política dessas leituras mais técnicas descoberta por mim em 2015 e a qual muito me motivou a passar bem por aquela prova.

Assim sendo, minha amiga me salvou de um surto psicológico sério. Estudando os documentos, participando de uma greve, refletindo sobre meu ser de mente acelerada, percebi estar não aproveitando a poética de minha existência atual. Há alguns meses moro sozinho, mas ainda próximo de minha mãe, a qual visito sempre que possível e a quem a proximidade do filho mais velho parece fazer muito bem. Eu posso ligar a TV em algum canal de música, ver séries e filmes quando quiser e me afundar na leitura com trilha sonora de qualidade por quanto tempo me apetecer. Posso encher a geladeira de cerveja e de petiscos, malhar ao lado de casa ou correr por uns cinco quilômetros e acordar todo dia sem ninguém me incomodando, seja choro de criança ou reclamações de parentes frustrados. Mas não consegui até agora aproveitar devidamente essa poética todo. Penso que antes de começar a estudar para a prova, eu estava, mas em um ritmo que em pouco tempo me colocaria a baixo.

Nesse momento, estou em casa em uma rede escrevendo e penso em Walquíria no sofá vendo vídeos, deitada ou sentada em uma posição que me transpassa profundamente charme. É uma imagem que me inunda de amor, pois sempre a vi como uma das pessoas mais belas com quem tenho contato. Diante de mim há uma pessoa que não oculta um comportamento profundamente libertário e despojado de convenções sociais tolas. Falamos de tudo e posso dizer que ela foi a pessoa que me incentivou a ver filmes blockbusters como interessantes convites à reflexão e ao deleite. Ao mesmo tempo, vejo uma das pessoas mais engraçadas e espontâneas que conheço e que emana uma bondade imensa.

Nesse período em que estamos estudando, penso que nunca ninguém me deu tanta comida e café apenas se contentando em troca com minha companhia e meu incentivo para estudar. E nesse processo todo, me xingando para largar o celular e ironizando meu comportamento neurótico, Walquíria me fez entender o quanto estou perdendo a poesia de minha vida.

Ontem, peguei-me cheio de amor lendo Servidão Humana, de Somerset Maugham e ouvindo música. Senti-me inebriado como há anos não me sentia, deixando de lado meu celular, apenas focando no ritmo e na leitura. Quando parei a leitura para descansar, decidi olhar fotos antigas em meu Facebook e me deparei com diversas do ano passado para cá com alunos e amigos e tive um daqueles lapsos momentâneos de lucidez nos quais a felicidade é tanta que só me resta chorar.

Pensei em como pude ficar tão longe de sentir isso por tanto tempo e não sei ao certo como e porque me afundei tanto em tecnicismo e produtividade cega para curar vazios existenciais. Não pude precisar bem quando tudo isso começou, mas pensei que se não tivesse pedido ajuda a Walquíria eu teria surtado e a beleza da arte não seria tão bem aproveitada e eu não sentiria aquela doce vontade de chorar de felicidade que tenho às vezes e que só se equipara, talvez, às lembranças da escola pública as quais hoje se concretizam com as aulas que dou para os mesmos meninos que fui um dia.

Diante de mim está Walquíria deitada no sofá vendo as aulas do professor Carlinhos que ela tanto ama ou dizendo o quanto Chris Evans é um lindo que ela pegaria com vontade. Ouço a risada gostosa, foco o sorriso lindo, contemplo o corpo de curvas sinuosas, perfeitas e admiro o estilo simples e que combina bem com o jeito de andar de uma pessoa que sabe o quanto é bela. Só posso dizer que sinto amor, profundo amor e que estudar para uma prova de concurso com Walquíria é tão prazeroso quanto estar com meus alunos e meus livros, pois nesses momentos sinto que a existência adquire um novo sentido, uma nova poética, deixa de ser um jogo fútil, tolo, bizarro.

Às vezes, eu a abraço de forma apertada como se a quisesse guardar dentro de mim, bem protegida para que seu calor humano me invadisse nos momentos de dificuldades e tristeza. Lembro-me de chegar cansado da greve, irritado com a desvalorização da classe, saudoso das brincadeiras e das provocações pedagógicas com jovens da periferia, querendo dormir, desistir de tudo ao menos por algumas horas. Mas decidi ir estudar com ela e em seus pequenos gestos um tanto rudes de menina moleca consegui converter todo o incômodo na vantagem de quem aprendeu algo com isso tudo e segue aprendendo.

E aqui, deitando, escrevendo, afundado na doce melancolia de um tempo que passa sem cessar, sinto que há em mim um profundo amor por Walquíria e fico muito feliz de poder sentir isso, de poder contemplar isso, assim como me enterneço por ler um romance escrito com lágrimas, sangue e suor ou uma música repleta de dor e doçura. Porque há seres que são belos, lindos e profundos como a mais genuína obra de arte, que são em si obras de arte.

 

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