Lenilson.

O encontro de formadores de leitores chegara a um horário mais calmo. Decidi-me a ir até o meu instituto verificar se haveria ou não aula de Alemão naquele momento. Era uma matéria que me assustava, mas eu gostava demais do professor, um gorducho muito bonachão e altamente erudito. O céu estava brilhante. O clima quente. Gostava de andar pelo campus da UFPA e me sentir em um livro de Simone nos tópicos. Gostava de imaginar Simone andando por ali como se estivesse em suas montanhas, mas eu gostava mesmo de me sentir como Simone naquela Paris cheia de vida, de cultura, de debates políticos. De ritmo incessante.

Tudo parecia belo, calmo, perfeito. O evento de formadores de leitores me fazia pensar que de repente agora haveria uma guinada em minha vida, que ela se encheria de intelectualidade, de pensamento, de arte. Cinco dias, no dia de finados, eu o vira. Ele estava bastante esquálido e ali eu senti medo, impotência. Ele iria morrer. Não queria aceitar o fato de imediato. Umas duas semanas antes, eu o visitara também. Estava já esquálido, frágil, com claros sintomas da doença que me revelaria no dia dos mortos, na semana em que morreria. Estava muito diferente de nosso último encontro, quando ainda falávamos do mês de julho repleto de teatro e de praia que tivéramos juntos.

Estávamos em meados de julho de 2013 e decidíramos ir à praia. Sempre tentávamos marcar algo, mas nunca dava certo, pois queríamos ir com um grande grupo de amigos que na hora final sempre dava para trás. Vendo que eu relutava, ele disse que iria sozinho. Senti-me tocado por mais esse furo que ele levaria e, conseguindo convencer mais uma amiga, fomos juntos a Cotijuba. Passamos ali dois dias e eu vi o espírito rebelde e suicida se manifestando com todo seu ardor. Senti medo e a morte ventou perto pela primeira vez.

Quando chegamos no sábado, vimos um rapaz desacordado porque se afogara. Bombeiros tentavam reanima-lo enquanto uma multidão olhava a tudo ensandecida, querendo filmar, compartilhar, testemunhar o espetáculo. Os bombeiros correram para alguma área reservada e aquela multidão toda os seguiu, sem que seu ânimo em nenhum momento baixasse.

Andando pelo campus da universidade, indo ao meu instituto verificar se teria aula de alemão e pensando no evento de formadores de leitores, eu me sentia distante da morte que me rodeava. Meu amigo esquálido havia três semanas me dissera que enquanto eu fazia uma prova de alemão e pensava nas aulas que daria pela tarde após pegar um ônibus calorento e adiantar a leitura de Gabriel García Márquez tentava me ligar, pois suas forças o abandonaram e ele quase caiu de uma escada. Minha vida seguia como se não houvesse amanhã, mas pela dele os sinos já dobravam.

Ao final do passeio, disse que sentia vontade de andar pela ilha. Ele me relatava que numa vinda anterior, uma das poucas em que nosso grupo conseguira se reunir, eles vieram andando e fora bem divertido. Eu me reaproximara de Jack Kerouac, queria viver aventuras. Queria me sentir livre, pleno.

-Minha sandália sumiu, ele disse.

-Sério?

-Sim. Eu acho que a deixei aqui fora e agora sumiu. Deve ter sido roubada.

-Que droga isso.

-Bem, queres ir andando mesmo?

 -Sabes que isso não foi bem um pedido, né? Apenas tenho essa vontade, mas podemos fazer isso em outro momento. Ainda mais, agora estás descalço.

 -Bom, isso aqui é só areia. Creio que dá para andar numa boa.

 -Tens certeza? Ok, então.

 O sol brilhava em Cotijuba como brilhava agora na UFPA, mas nossa amiga fora mais cedo. Queria ficar só. O dia era alegre, cheio de aprendizagem, cheio de poesia. Cada passo dado na ilha me enchia de alegria, assim com na UFPA. A cada momento algo novo se revelava para mim e eu sentia a alegria do corpo em movimento, dos pássaros cantando, da água na cara nos mergulhos dados, na descoberta do engajamento com a militância pela leitura, de me sentir em um mundo de conhecimento. A vida parecia plena, cheia de sentido, infinita. Uma sinfonia.

 Andava pela UFPA sem pensar em Lenilson. Ele se cuidaria, ficaria bem, eu ficaria ao seu lado. Tudo daria certo. Deveria deixar de ser egoísta e sair um pouco mais de minha experiência temporal. Duas semanas antes eu sentira isso ao sair de casa em um feriado para ir vê-lo e ficando chocado com sua magreza, sua fragilidade. Ele sempre me pareceu forte demais. Até hoje é forte demais, porque sua memória ainda persiste com intensidade.

 -Espero não perder meu emprego.

 -Achas que corres risco de isso ocorrer?

 -Não sei. Meu chefe disse que irá me manter até eu me sentir melhor.

 -Então penso que deves ficar calmo. O importante agora é tua saúde.

 -Sei disso. Mas preciso mesmo voltar ao trabalho.

 -Tudo vai dar certo, cara.

Eu estava assustado. A morte estava ali, mas ela não virava palavra. Viraria no dia de mortos, pelo telefone, em uma ida apressada até o centro da cidade, onde teríamos sido vizinhos se ele não tivesse morrido e para onde seis meses depois eu me mudaria. Enquanto morei em São Brás, imaginei muitas vezes como seriam nossos rolês aos finais de semana indo ao cinema ou à Praça da República. Imagino-me ao seu lado com Kárita e Hamilton, fugindo um pouco do provincianismo. De repente, ele me ajudaria a não ter destruído o trio de amigos que tanto me fazia bem e ainda me faz como memória afetiva. Penso que esses anos morados no centro, de silêncio opressor em tantos momentos, teriam sido mais leves comigo indo a sua casa para ouvir rock e tomar uma cerveja barata.

Cheguei ao instituto e descobri que não haveria aula. Seguíamos a caminhada e eu falava de literatura beat. Dizia que ele me fazia pensar em um Dean Moriarty, ele era meu Dean Moriarty. Não haveria aula. Eu poderia voltar ao evento de formadores de leitores. Fiquei exultante com isso. Na época, eu não tinha celular com internet e decidi-me a olhar meu Facebook.

-Soube do ocorrido com nosso amigo, disse um conhecido em comum.

Pensei que se referia à doença.

-Sim. Mas acredito que ele ficará bem. Ele ficará bem. Tudo ficará bem.

Seguíamos andando pela areia das praias. Crianças brincava de bola, pulavam em um igarapé. Eu me sentia Sal Paradise. Lenilson lia meus poemas em frente à casa de Klízia. Cada novo passo me ensinava algo novo, cada árvore me fazia sentir que as sensações eram o sentido da vida.

-Pelo que soube ele se foi…

-Como assim? Falei com ele há cinco dias?

-Parece-me que foi ao hospital e lá teve complicações.

Liguei para seu telefone. Uma voz chorosa me atendeu.

 -Ele morreu.

Minhas mãos começaram a tremer. Olhei para fora e o sol seguia brilhando, a gente seguia andando na areia. Eu seguia aprendendo. Perto do porto, os seus pés começaram a doer por conta das pedras. Mesmo sem sandália ele me dera a chance de conhecer Cotijuba. De andar e sentir o corpo em movimento. Com as mãos tremendo comecei a ligar para outras pessoas avisando do que ocorrera. Tudo parecia uma obra de realismo mágico. Lenilson poderia estar pregando uma peça e eu me convenci disso. Andando pelo campus horas depois lembrei de sua mãe chorando. Antes disso, passara a tarde no evento de formação de leitores, explicando meu ar abatido e agitado em horas que sumiram de mim.

 Chegamos ao porto. Os seus pés estavam doloridos, mas ele se sentia bem.

 -Valeu, cara. Valeu mesmo. Eu precisava desse rolê.

 -Que bom que gostaste.

 -Amanhã começo a escrever para um blog de literatura. Acho que usarei esse fim de semana como inspiração para uma crônica.

 -Olha. Que legal. Vou ser personagem de um texto teu. Que honra.

 -Sim. Hahaha. Não é grande coisa, mas espero que gostes.

 -Seguimos a viagem e eu contemplava as águas barrentas felizes. Olhava as águas barrentas e via a fluidez da vida. A morte invadira os muros da universidade. Tudo parecia perturbador demais. Gabriel García Márquez parecia ter invadido minha vida. O choro da mãe de Lenilson insistia em fugir de minha mente, como se ela quisesse ver Lenilson escondido, rindo de nós, como costumava fazer. Tudo se esvaía.

-Vai ter programação essa semana no estúdio.

-Amanhã, não?

-Sim.

O ônibus seguia veloz. A conversa era agradável. Não queria que terminasse.

-Estou feliz com essas férias, irmão?

-Pelo visto, estão melhores do que esperavas, hein?

-Sim. Vida ativa. Tenho ido ao cinema, ao teatro e até mesmo a praia. HAHAHAHA. A UFPA começa em algumas semanas e gosto disso, de me sentir ocupado até a medula com atividade intelectual.

-Fico feliz de te ver assim. Aparece amanhã.

-Aparecerei.

Desci do ônibus e segui para casa. Nossa amiga estava bem em casa, melhor de sua melancolia. O funeral seria pela noite. Cruzei o conjunto onde morava e todo ele me parecia vazio de sentido. O rosto de Lenilson estava impassível. Eu seguia aprendendo. Todo o caminho de volta para casa parecia imenso. Assustador.

Andando pelas ruas hoje não entendia a melancolia dos últimos dias, a qual vinha como um fato inexplicado de profundas regiões de meu ser. Um lembrete de celular então me fez perceber o motivo de tudo. O rosto impassível de Lenilson voltou a aparecer. Eu sigo aprendendo enquanto o sol lá fora seguirá brilhando e os pássaros cantando nas curvas de um caminho cheio de descobertas, poesia e uma estranha alegria marcada pela morte.

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