Hoje é um daqueles dias em que o absurdo da existência parece tomar conta de mim. Meus livros estão sem serem lidos, meu sono está pesado e eu me vejo diante da imensidão da complexidade de uma série de problemas cuja solução parece estar aqui, diante de mim, mas muito distante. Um paradoxo. No ônibus, a caminho da greve, coloquei um antigo amor em forma de música e de repente me senti diante de minha velha melancolia. Uma melancolia que hoje discute severamente com meu marxismo.
Tudo pareceu de repente complicado demais sob o sol das nove da manhã. Há uns dez anos, essa complicação se perdia em andanças repletas de metafísica. Agora eu me vejo inebriado pela ação concreta. Mas algo sempre me fez sentir a ação concreta assumida como algo muito preso a um conceito específico. E eu creio demais em obnubilação. Olho para a sala de leitura da escola onde dou aula fechada e aquilo me incomoda mais, eu sinto, do que a remuneração parca que recebo. Porque se vivo em um mundo cheio de injustiça social, aquela porta fechada é algo que retroalimenta injustiça e desvalorização.
Penso que tudo seria mais belo, mais fácil até, mais amplo se um aluno tivesse mais facilidade em pegar um livro, se encantar com esse livro, querer ler mais livros e se tornar uma pessoa com espírito inquieto pela leitura. Eu cresci rodeado pela greve, ao mesmo tempo que pouco sofri com ela. Ao meu redor, elas pululavam e nas poucas vezes em que meus professores grevaram não entendia o processo. Era folga. Nada mais.
Enquanto eu participava de uma ocupação de uma prefeitura nos últimos dias, senti-me inebriado pela ação concreta. Mas de repente, como o incidente de Antares, essa ocupação deixou de existir e em mim ficou um estranho sentimento de absurdidade que me deixa perplexo. E no ônibus a melancolia me serviu de lembrança doce, pois há dez anos eu me sentia completo nela, ouvindo a música triste que virou meu amor musical desde então. A ação concreta me fazia pensar que estávamos rodeados por quem deveria nos ouvir e essas pessoas não nos ouvia.
Porque a porta estava fechada. O livro intocado. A sucata dominando tudo. Lembrei que há um ano, entrando na escola pública, eu prometi que minhas aulas seriam de leitura, pura leitura, puro debate. Meus alunos veriam muitos filmes e leriam muitos contos e eu faria trabalho na sala de leitura e eles aos poucos criariam uma teia de leitura a ampliar as consciências inquietas por aí. Por mais que eu seja uma mera gota nesse oceano social imenso, penso que em algum momento eu falhei. E que passei muitos conteúdos, mas pouca leitura. Eu não mantive essa porta aberta por muito tempo.
Dizem que greve é algo feito por quem quer descansar recebendo por isso. Nunca me senti tão exaurido na minha vida como nos últimos anos. Neste momento, tento entender se me sinto cansado ou deprimido. Ou os dois. Mas minha memória me faz pensar que na ação concreta eu fui feliz. E que provavelmente irei a mais ações concretas, mesmo que no fundo eu me sinta obrigado a seguir um passo de uma dança que não faça muito sentido para mim. Na ação concreta em diversos momentos eu me senti alegre, mesmo com meus direitos sendo atacados, então a melancolia de agora é apenas um ar triste sobre algo que tem muito a dizer para mim.
Mas a obnubilação é o que interessa. Falar de leitura como ato político, como prazer, mostrar aos alunos quem lhes nega esse direito e criar neles o gene egoísta de querer levar leitura para o amigo do lado e atacar quem lhe nega o direito de ler. Fazer o aluno entender que a leitura o ajudará a fazer seu mundo melhor, pelo amor e pela ação concreta. Ainda me resta fé nisso. Meu marxismo e minha melancolia dialogam incessantemente.
Mais cedo a melancolia falou mais alto, porém. Uma amiga me imitou e me achei patético. Muito patético. Uma alegria tosca, não convincente, desesperada. Forçada. Uma epifania. Meus livros estão praticamente intocados nos últimos dias. Muito pela greve, mas também pelas conversas e olhadas em aplicativos com piadas, informações e devaneios rasos, muito também por essa alegria falsa, esse desejo de interagir a todo custo, esse falseio de ideias sobre liberdade. Esse desespero do tipo mais superficial. Acho que eu mesmo não fui atingido pela obnubilação. A luta política faz sentido, mas sinto que falta a ela um pouco de poesia.
Acho que falta em mim um pouco de poesia. De falar sobre literatura e cinema por horas a fio e isso me fazer querer ver mais filmes e de repente incentivar este ou aquele aluno a fazer o mesmo e, na sua inquietude, ele fazer o mesmo e ganhar forças e teimosia diante de um mundo cheio de balas, sangue e miséria que nos convence a ficar quietos. De repente, a imitação de minha amiga me fez entender que sou uma imitação de algo, de alguém que não sei ao certo quem sou.
Voltei para pensando nisso e querendo ouvir músicas melancólicas, pesadas e doces enquanto leio diversas páginas e penso em como é legal simplesmente conversar com meus alunos, ganhar uns abraços e sentir que de alguma forma aquele jovem foi tocado. Talvez a ponto de lutar por sua autonomia.
A luta política é importante. A poesia também é. Talvez precise mais um pouco da segunda. Precisamos. Tomara que essa greve acabe. Estou com saudades de meus alunos e de tentar ser uma obnubilação que até hoje não consegui ser ainda plenamente.