rafaelkafka2011

Babel e angústia de existir.

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Babel não é um filme fácil de ser visto. Desde o começo, há nele uma profunda tensão existencial e psicológica em quadros medianos ou longos que nos fazem criar grande expectativa sobre o que ocorrerá na sequência dos fatos. Já nas primeiras cenas, temos um rifle caindo nas mãos de duas crianças marroquinas e a partir daí começamos a esperar pela tragédia iminente em cada um dos momentos deste belo longa dirigido Alejandro Gonzales Iñarritu.

O rifle nas mãos das crianças serve de gatilho – uma espécie de duplo sentido interessante aqui – para a ocorrência de uma série de fatos que se ligam ocorrer ao redor do mundo. A unidade temática do filme é esse disparo metafórico que passa a evidenciar o absurdo da experiência humana e o modo como ações tomadas em um determinado espaço afetam outras existências, mesmo que os sujeitos actantes não percebam.

Assim, a brincadeira entre as duas crianças fere Susan, esposa de Richard, o qual tivera a ideia de uma viagem para que os dois ficassem sozinhos. Pouco se sabe sobre as crises do casal, mas no final sabemos de outro filho além dos dois que acompanharemos durante a história – Sammy – cuja morte marca profundamente a rotina do casal americano. Richard se vê então isolado em uma pequena vila marroquina tentando de todas as formas buscar ajuda para sua esposa. A situação vivida pelo personagem encenando por Brad Pitt causa em nós um profundo sentimento de angústia, pois há ali toda uma questão da pequenez humana diante dos fatos que ocorrem sem que nós queiramos. Jones é um personagem a encarnar com ardor a impotência da espécie humana diante do simples acaso.

Podemos dizer que é o acaso o grande protagonista do filme com as ações das quatro histórias sendo narradas ao mesmo tempo. Os garotos envolvidos no tiro que fere a personagem de Cate Blanchet são oriundos de uma família árabe pobre, cujo pai conseguiu o rifle de um vizinho que por sua vez o conseguiu de um caçador japonês para quem serviu de guia. Este por sua vez tem uma filha surda que se angustia diante da impossibilidade de comunicação com as pessoas ao redor e de viver experiências amorosas e sexuais. O acaso é tão forte que mesmo as ações planejadas por essa garota acabam descambando em outros rumos que os não desejados por ela. Ao tentar seduzir violentamente um garoto gera apenas surpresa e ao policial no final do filme provoca apenas compaixão.

Quanto aos garotos, veem o pai ser ameaçado de prisão e fogem com ele, mas se envolvem em uma ação policial que revela muito da violência dessa instituição em qualquer lugar do mundo, primeiramente atirando para somente depois perguntar o que ocorreu.

A outra história paralela é a de Amelia, senhora mexicana que trabalha como babá na casa de Richard e que diante do imprevisto ocorrido com o patrão decide levar às crianças ao casamento do filho, que não queria perder por nada neste mundo. Ao lado de Santiago, sobrinho lindamente interpretado por Gael Garcia Bernal, ela se envolve em um incidente com a polícia na fronteira e depois de ser salva do deserto se vê diante do drama da deportação.

Além da tensão citada no começo do filme, há uma constante violência nas cenas que mesmo sendo sutil é perturbadora. A arma na mão das crianças me remeteu a certas brincadeiras inocentemente registradas no bom Território do Brincar, que por mais ingenuidade que possuam mostram um latente risco de morte para os sujeitos envolvidos. Santiago arrancando a cabeça de uma galinha diante do olhar espantado do filho de Richard e Susan levando pontos sem anestesia com a câmera focada em seu rosto angustiado também são cenas pesadas que revelam uma violência presente no próprio existir humano.

Cada um dos personagens envolvidos nesta história possui uma narrativa pessoal problemática, mas que segue uma ordem de certa forma linear e estável. Porém, em dado momento, tais linhas podem ruir e o ser se deparar com o caos e o desespero de ter sua liberdade tomada, de se ver sozinho no meio do nada ou de um lugar onde não conhece absolutamente nada.

Neste sentido, interessante que a história da garota Cheiko – interpretada de forma esplendorosa por Rinko Kikuchi – mostra-se como a mais próxima de um certo ar estável e se caracteriza como uma tentativa de ruptura consciente. Cheiko quer transar, amar, ser amada, se comunicar, mas falha em todos os momentos, mesmo quando se despe literalmente para causar desejo. Interessante também vermos uma estrela como Brad Pitt aparecendo relativamente pouco dentro dos enredos entrecruzados, apesar dos lances dramáticos de sua história. Tal escolha por Iñarritu parece indicar um elemento metalinguístico interessante o qual evidencia que a existência humana não se comporta como uma obra de ficção, não tendo clímax e finais acabados nem mesmo personagens com destaque ontológico.

Brad aqui é literalmente mais um ator em um elenco muito bom a trabalhar situações interessantes que se cruzam exibindo a crueza e a crueldade do existir humano. Gael e Rinko acabam se destacando por sua carga expressiva forte – cada um a sua maneira. Mas no final das contas Babel se mostra sem a intenção de valorizar esta ou aquela estrela de cinema. Em todos os momentos o acaso e a angústia tecem a poesia deste belo longa o qual revela como somos frágeis diante de uma existência para a qual a cada momento buscamos dar uma explicação discursiva e lógica.

Curioso que tão envolvidos como estão nos fatos vividos nem para isso as personagens se voltam. Não há alusão a Deus no filme, por exemplo. Paradoxalmente, Cheiko é quem usa a escrita para se expandir, seja no cotidiano quando a língua de sinais parece não servir, seja no final quando escreve um misterioso bilhete, que bem poderia ser uma nota de suicídio, ao impotente policial. Parece que diante da existência e sua lógica sem lógica a linguagem pouco pode fazer, quando muito servir de consolo até que situações-limites ocorram e nada mais reste exceto existir.

 

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