Sol e saudade.
Hoje o dia amanheceu ensolarado e eu tranquilo, naquela eterna dúvida entre ler trocentas coisas ao mesmo tempo ou ler somente um livro e me dedicar mais a escrever sobre filmes, livros e o nada de ser. No intervalo entre uma prova e outra, parei para olhar as lembranças do Facebook, algo poético a sobreviver em tempos tão mecânicos, mesmo sendo uma poesia retroativamente nascida. Mesmo sem olhar conteúdos diretamente ligados, peguei a pensar em outros bons dias ensolarados que permanecem em minha mente como os rastros de uma sonata que mesmo finalizada insiste em me enlevar em seu encanto.
Não quero soar presunçoso ao falar como um Proust aqui. É justamente assim que me sinto. Por mais que ame meu bairro e minha vida atual, pego-me constantemente sonhando, devaneando, com uma vida que até pouco tempo atrás estava em minhas mãos mesmo aos poucos se esvaindo. Uma vida composta por dois grandes amigos que eu, em meu amargo, afastei de mim.
Vejo-me ainda combinando com os dois por telefone e Whatsapp o nosso encontro na Praça da República, ele sempre elegante em seu jeito calmo de ser e ela também, dona de um sorriso e de uma cor de pele os quais me faziam pensar em uma personagem de cinema clássico nascida em Belém, sob o calor dos trópicos. Lembro com um carinho imenso, caloroso, de minha saída de casa, na tranquila Vila Teta, para ir até eles, andando pela Magalhães/Nazaré sob a proteção verde das mangueiras, sentindo a estranha antítese da ansiedade a qual tomava conta de mim rodeada pelas ruas limpas e tranquilas do centro no final de semana.
Lembro com imenso carinho da gente andando pela Praça, depois pelas imediações, parando no Ver-o-Peso para comer algo, indo até o Forte do Presépio sob o sol quente, sempre falando, falando e falando.
Lembro dele e eu pegando o ônibus para acompanha-la até perto de sua casa, onde ela pegaria outro ônibus. Lembro da gente voltando feliz e leve, comigo ignorando a tradicional dificuldade de dormir aos domingos pelo medo do ambiente mercadológico da segunda. Lembro de como eu sempre admirei esse amigo querendo ser mais cinéfilo como ele, mas sem perder minha verve literária.
O sol lá fora brilha. Hoje preciso elaborar provas, estudar para uma prova, decidir se consigo focar em um livro ou se me prendo a ler vários. Tenho uns filmes a ver também. Tenho muita coisa a fazer e a vida parece bela demais. Bela.
Mas esse sol me faz sentir saudades. Saudades de quando eu voltava para casa desses encontros, pegava o cuscuz na geladeira de minhas tias, na casa onde morei por três anos, e sentava na frente do computador para ver os jogos do São Paulo. Lá fora, muitas vezes, a chuva caía e eu sentia uma tranquilidade tão forte que pensava “o paraíso se existir é isso”. Pensava com amor naqueles momentos e hoje volto a sentir esse mesmo amor me dominando, mas com um ar de melancolia, de nunca mais.
Não sei como será o resto do dia. Sinto que o sol seguirá brilhando aqui dentro, deixando-me com os passos pesados por conta da atenção focada na falta, na saudade. Porque sinto que sou todo saudade.
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