Ensaio sobre a feiura.
Não sei quando a feiura surgiu em minha vida. Na verdade, desde criança sempre quis viver minha existência da forma mais simples e direta possível. Nunca me preocupei com o fato de ser ou não feio. Mas a feiura sempre se mostrou algo jogado diretamente em meu rosto.
O pequeno Jean-Paul Sartre descobriu que era feio quando o seu avô decidiu cortar suas madeixas loiras e encaracoladas para garantir ao infante um ar mais viril e digno de um homem da família. Sartre percebeu então seu estrabismo e desde então buscou fazer das palavras uma forma de transcender sua condição de homem feio, usando de seus encantos intelectuais para encantar as diversas mulheres com quem ficaria em sua vida.
Não sei se involuntariamente faço isso também. Conquistar dar trabalho demais e quando somos feios esse esforço se dá com maior intensidade. Lembro que há oito anos eu ganhei um notebook por causa de alguns trabalhos feitos na época. Pensava em usar essa máquina para obter mais saber e compartilhar meus textos e minhas visões de mundo. Penso que gastei boa parte desses anos imitando Sartre, tentando conquistar usando meus saberes. Hoje sinto que gasto a maior parte desse tempo tentando me distrair, fugir da solidão que me acomete em certos momentos, tentando criar diálogos longos e produtivos.
Um dia sonhei em ser alguém influente na internet, ganhando rapidamente a fama que meus ídolos ganharam em suas existências. Dia desses, um aluno de onde dou aulas disse que minhas postagens em redes sociais pouco alcance possuem e eu tive de concordar. Mas o meu eu de 2018 pouco se importava com o fato se comparado com o eu de 2011, por exemplo. Algumas vozes me disseram que o que eu escrevia era, de alguma forma, importante para elas. Preferia esse pequeno público mexido a uma multidão indiferente, apesar de ainda sonhar com uma multidão que leia e discuta minhas ideias um dia.
Mas eu sou feio. A feiura se mostra como um grande empecilho para se obter sucesso. A feiura é por mim descoberta todos os dias em minha vida. Hoje ela já não me fere. Talvez eu seja um ser barroco cujas imperfeições estejam expostas demais pelo meu modo de ser e por isso a feiura seja muito exposta a mim, inclusive com o agravante de falar o que penso e de pouco me importar com coisas que gente de minha idade parece se preocupar demais.
Mas penso que sempre fui assim. Pouco me importando com desimportâncias toscas e sendo chamado de feiura por isso. Por algum motivo, sinto que isso começou quando criança eu passava as férias na casa de minhas tias e ouvia delas, de minha avó e de meus primos que era um magrelo com jeito de viado a cada cinco minutos. Naquela época, eu tentava rir para disfarçar a vontade de chorar, mas depois comecei a chorar mesmo. Hoje eu simplesmente saio de espaços que me fazem pensar na mesa da sala de jantar da casa de minhas tias, uma mesa que anos depois estaria na penumbra da pobreza afundada em orgulho e me faria pensar com melancolia naqueles xingamentos.
Lembro da feiura sendo jogada em meu rosto quando minha avó descia as escadas e dizia “Tu vais à missa, viu bem? Não quero protestantes como a doida de tua mãe em minha família. Já basta ela”. Minha mãe era doida por sendo anos mais velhas ter seduzido o pobre de meu pai. Minha mãe me fazia me sentir feio quando todos pensavam ser ela minha avó e todos tinham mães jovens e com pele fresca. Minha mãe me faria me sentir feio quando disse, várias vezes, que eu precisava largar os estudos para ganhar dinheiro em casa, pois como filho mais velho eu deveria ajuda-la na tarefa de cuidar de três crianças menores, que passavam o dia na rua brincando sem preocupações. Eu não queria trabalhar. Eu queria estudar, organizar minha mente, caminhar, jogar bola, ler… Mas minha mãe queria que eu trabalhasse, brigou tanto comigo que me neguei a isso e cresci me sentindo culpado pela miséria de minha família.
Quando tive de sair de casa para morar com minhas tias, as mesmas da infância, eu me senti feio porque meu primo, alcóolatra, era sempre elogiado, e eu que todo dia acordava cedo para dar aula e nunca atrasava a ajuda mensal dada lá era criticado de todas as formas possíveis, em especial no tocante à sanidade mental, por aos 28 anos de idade não ter filhos, não ter esposa, não ter vícios e só querer brincar de existir. Quando saí da casa delas, não aguentando mais um alto grau de cobrança, fui chamado por minha mãe de doido por tentar financiar uma casa e garantir sossego e privacidade.
Dia desses, a chuva caía e Chopin tocava numa rádio que sintonizo. Peguei-me com os olhos em lágrimas, pois eu senti na figura do professor Bernard um misto de presente e passado. Uma figura daquelas em minha vida teria sido muito útil e eu espero ser uma figura como essa na vida de meus alunos, dando-lhes o prazer de descobrir o mundo com seus olhos próprios provocados por mim. A chuva me faz pensar em muitas coisas, em especial em ciclos que se fecham e em coisas que se repetem. Camus com sua escrita poética mexeu em mim com certa dor que sempre existiu no contato com a feiura. Porque a feiura sempre foi esfregada em minha cara de todas as formas possíveis.
Várias vezes fui chamado de feio por não levar a vida a sério. Por dar aulas como se estivesse dialogando com amigos, por tratar alunos com abraços e brincadeiras. Por aos trinta anos não ter filhos e esposa, por só pensar em ver mais filmes e em ler mais livros, por não querer nada dessa vida de ar responsável que infesta o nosso mundo pequeno burguês. Por acreditar que as coisas podem ser mudadas.
Fui chamado de feio por querer discutir política a sério com alunos de 13/14 anos, por querer discutir política, por malhar sem neuras, por ler vários livros ao mesmo tempo, por ler, por correr, por não desejar sexualmente as mulheres que trato bem, por desejá-las, por não querer casar, por ser romântico demais, por não ter fé, por ter fé na humanidade, por andar de ônibus e por não querer ter carro.
Eu era uma criança bonita pelo que me dizem as fotos. Mas eu era chamado de feio sempre. Magrelo afeminado. Chorão ainda por cima. Cresci com as marcas de acne em meu rosto marcado por unhas ansiosas. A feiura ali está sempre. Inclusive quando tento, para o olhar dos outros, fugir dela. Porque correr e malhar é justamente para fugir da feiura e não para viver mais, para ter uma coluna melhor e não correr riscos de um AVC que me deixaria com profundas sequelas. A feiura ali está diante de mim quando me falam que não tenho o corpo feio, quando não tenho os sonhos de acumular carga horária e dinheiro, quando quero simplesmente tomar meu café, ler um livro e ficar em paz.
Sempre fui chamado de feio por ser questionador, por ser largado, por não tolerar ignorância e superficialidade. Hoje sou chamado de feio por andar lendo na rua, tentando adiantar meus diversos afazeres intelectuais nessa vida de proletário. Sou chamado de feio por não ter mestrado, por desprezar a academia como certificadora de que sei de algo. Todo dia sou chamado de feio quando alguém diz que apesar de ser um aborrecimento, gosto de trabalhar, tenho inteligência, algum charme.
Hoje fui chamado de feio porque disse publicamente que amo uma pessoa a qual conheço há alguns meses. Porque digo que amo muita gente, como se amar fosse algo que devesse ser mais exclusivista. Fui chamado de feio por ser pouco carinhoso, quando várias vezes já fui chamado de feio por ser extremamente carinhoso.
Por esses dias, fiquei analisando como pessoas próximas a mim são constantemente chamadas de belas e fiquei pensando que se tentasse agir como elas para ser belo, eu cairia naquilo que Homi Bhabha chama de mímica: eu seria um colonizado imitando um colonizador, um feio imitando um belo. Meus cabelos ou estão grandes demais ou mal cortados, meu corpo não emite cheiros de perfumes fortes, minha roupa está muito surrada, meus olhos não são verdes ou azuis, não sou viril ou sério o suficiente, não sou senso comum ou inteligente o suficiente.
A feiura está estampada em meus gestos e em meu modo de ser. Conversando com um amigo mais cedo, fiquei pensando que em algum momento isso parou de me incomodar. Eu saía sozinho para ir ao cinema e amava a película exibida, que se encaixava dentro de um conceito maior de momentos antes estar em uma cadeira de uma fonoteca ouvindo rock progressivo enquanto lia um romance existencialista. Mas tudo isso era embaçado por uma dúvida cruel: quando eu encontraria a musa existencialista com quem dividiria essas impressões de leitura, essas coisas que me faziam chorar diante da beleza do mundo?
Quando foi que isso parou de ser um questionamento sincero para mim? Não sei ao certo e andando por uma rodovia pela qual andei tanto nessa curta existência, tento precisar o momento sem conseguir. A existência se mostra plena de sentido em sua incompletude. A pessoa me chamando de feio por amar demais me fez pensar nisso. O notebook em que tentei conquistar e ter conversas produtivas por esses anos todos também. Tudo vazio, fragmentado, emprestado. Diante de mim há o futuro agora. Lutas políticas, dinheiro para comprar móveis, minha mãe sendo apoiada, caminhadas, longas caminhadas, livros, filmes, viagens, silêncio, música… Quando eu parei de sonhar com a musa existencialista?
Meus últimos romances foram com pessoas que em nada se parecem com essa imagem criada a partir dos romances de Simone de Beavuoir. Eu tentei amar as pessoas em sua concretude e consegui, mas ao passo que consegui a ilusão da paixão eterna se foi. Amo as pessoas naquele momento, no seu andar e desenrolar em minha existência, no seu passar por mim e voltar quando tiverem vontade, no seu esplendor pessoal mesmo que elas não me mandem mensagens perguntando como estou. Eu as amo pela humanidade contida nelas. Mas esse amor não é formal. Ele vem e vai naturalmente, ele não é mais feito de promessas. Quando ele surgiu? Não sei. Porém meu olhar mudou, sinto isso.
Um dia, pensei em morrer. A feiura era tão estampada em meu rosto que eu não aguentava mais. Andando pela rodovia, pensei que o desejo de viver veio justamente no momento em que todas as coisas belas de minha existência começaram a invadir meu modo de ser e minhas memórias. Sentado em uma praça, olhando uma capa bonita, pensando na piada de um aluno, nas possibilidades espalhadas adiante, na sorte que tive de viver certas coisas, eu realmente não conseguia mais precisar quando o amor morreu e renasceu sobre outra forma. Apenas sei que naquele momento a morte parou de ser fuga e o existir se revelou algo valioso e belo. Porque há tanta beleza nesse mundo que em alguns momentos parece que não vou aguentar e vou sufocar. Há tanta beleza no mundo que morrer se torna algo lamentável. Há tanta beleza no mundo que ser feio deixa de importar, porque meus olhos e ouvidos estão ocupados com outras coisas e a feiura exposta só me causa irritação, hoje, quando me impede de encarar o que há de poético ao meu redor e justifica minha existência.
