Ensaio sobre a feiura.

Não sei quando a feiura surgiu em minha vida. Na verdade, desde criança sempre quis viver minha existência da forma mais simples e direta possível. Nunca me preocupei com o fato de ser ou não feio. Mas a feiura sempre se mostrou algo jogado diretamente em meu rosto.

O pequeno Jean-Paul Sartre descobriu que era feio quando o seu avô decidiu cortar suas madeixas loiras e encaracoladas para garantir ao infante um ar mais viril e digno de um homem da família. Sartre percebeu então seu estrabismo e desde então buscou fazer das palavras uma forma de transcender sua condição de homem feio, usando de seus encantos intelectuais para encantar as diversas mulheres com quem ficaria em sua vida.

Não sei se involuntariamente faço isso também. Conquistar dar trabalho demais e quando somos feios esse esforço se dá com maior intensidade. Lembro que há oito anos eu ganhei um notebook por causa de alguns trabalhos feitos na época. Pensava em usar essa máquina para obter mais saber e compartilhar meus textos e minhas visões de mundo. Penso que gastei boa parte desses anos imitando Sartre, tentando conquistar usando meus saberes. Hoje sinto que gasto a maior parte desse tempo tentando me distrair, fugir da solidão que me acomete em certos momentos, tentando criar diálogos longos e produtivos.

Um dia sonhei em ser alguém influente na internet, ganhando rapidamente a fama que meus ídolos ganharam em suas existências. Dia desses, um aluno de onde dou aulas disse que minhas postagens em redes sociais pouco alcance possuem e eu tive de concordar. Mas o meu eu de 2018 pouco se importava com o fato se comparado com o eu de 2011, por exemplo. Algumas vozes me disseram que o que eu escrevia era, de alguma forma, importante para elas. Preferia esse pequeno público mexido a uma multidão indiferente, apesar de ainda sonhar com uma multidão que leia e discuta minhas ideias um dia.

Mas eu sou feio. A feiura se mostra como um grande empecilho para se obter sucesso. A feiura é por mim descoberta todos os dias em minha vida. Hoje ela já não me fere. Talvez eu seja um ser barroco cujas imperfeições estejam expostas demais pelo meu modo de ser e por isso a feiura seja muito exposta a mim, inclusive com o agravante de falar o que penso e de pouco me importar com coisas que gente de minha idade parece se preocupar demais.

Mas penso que sempre fui assim. Pouco me importando com desimportâncias toscas e sendo chamado de feiura por isso. Por algum motivo, sinto que isso começou quando criança eu passava as férias na casa de minhas tias e ouvia delas, de minha avó e de meus primos que era um magrelo com jeito de viado a cada cinco minutos. Naquela época, eu tentava rir para disfarçar a vontade de chorar, mas depois comecei a chorar mesmo. Hoje eu simplesmente saio de espaços que me fazem pensar na mesa da sala de jantar da casa de minhas tias, uma mesa que anos depois estaria na penumbra da pobreza afundada em orgulho e me faria pensar com melancolia naqueles xingamentos.

Lembro da feiura sendo jogada em meu rosto quando minha avó descia as escadas e dizia “Tu vais à missa, viu bem? Não quero protestantes como a doida de tua mãe em minha família. Já basta ela”. Minha mãe era doida por sendo anos mais velhas ter seduzido o pobre de meu pai. Minha mãe me fazia me sentir feio quando todos pensavam ser ela minha avó e todos tinham mães jovens e com pele fresca. Minha mãe me faria me sentir feio quando disse, várias vezes, que eu precisava largar os estudos para ganhar dinheiro em casa, pois como filho mais velho eu deveria ajuda-la na tarefa de cuidar de três crianças menores, que passavam o dia na rua brincando sem preocupações. Eu não queria trabalhar. Eu queria estudar, organizar minha mente, caminhar, jogar bola, ler… Mas minha mãe queria que eu trabalhasse, brigou tanto comigo que me neguei a isso e cresci me sentindo culpado pela miséria de minha família.

Quando tive de sair de casa para morar com minhas tias, as mesmas da infância, eu me senti feio porque meu primo, alcóolatra, era sempre elogiado, e eu que todo dia acordava cedo para dar aula e nunca atrasava a ajuda mensal dada lá era criticado de todas as formas possíveis, em especial no tocante à sanidade mental, por aos 28 anos de idade não ter filhos, não ter esposa, não ter vícios e só querer brincar de existir. Quando saí da casa delas, não aguentando mais um alto grau de cobrança, fui chamado por minha mãe de doido por tentar financiar uma casa e garantir sossego e privacidade.

Dia desses, a chuva caía e Chopin tocava numa rádio que sintonizo. Peguei-me com os olhos em lágrimas, pois eu senti na figura do professor Bernard um misto de presente e passado. Uma figura daquelas em minha vida teria sido muito útil e eu espero ser uma figura como essa na vida de meus alunos, dando-lhes o prazer de descobrir o mundo com seus olhos próprios provocados por mim. A chuva me faz pensar em muitas coisas, em especial em ciclos que se fecham e em coisas que se repetem. Camus com sua escrita poética mexeu em mim com certa dor que sempre existiu no contato com a feiura. Porque a feiura sempre foi esfregada em minha cara de todas as formas possíveis.

Várias vezes fui chamado de feio por não levar a vida a sério. Por dar aulas como se estivesse dialogando com amigos, por tratar alunos com abraços e brincadeiras. Por aos trinta anos não ter filhos e esposa, por só pensar em ver mais filmes e em ler mais livros, por não querer nada dessa vida de ar responsável que infesta o nosso mundo pequeno burguês. Por acreditar que as coisas podem ser mudadas.

Fui chamado de feio por querer discutir política a sério com alunos de 13/14 anos, por querer discutir política, por malhar sem neuras, por ler vários livros ao mesmo tempo, por ler, por correr, por não desejar sexualmente as mulheres que trato bem, por desejá-las, por não querer casar, por ser romântico demais, por não ter fé, por ter fé na humanidade, por andar de ônibus e por não querer ter carro.

Eu era uma criança bonita pelo que me dizem as fotos. Mas eu era chamado de feio sempre. Magrelo afeminado. Chorão ainda por cima. Cresci com as marcas de acne em meu rosto marcado por unhas ansiosas. A feiura ali está sempre. Inclusive quando tento, para o olhar dos outros, fugir dela. Porque correr e malhar é justamente para fugir da feiura e não para viver mais, para ter uma coluna melhor e não correr riscos de um AVC que me deixaria com profundas sequelas. A feiura ali está diante de mim quando me falam que não tenho o corpo feio, quando não tenho os sonhos de acumular carga horária e dinheiro, quando quero simplesmente tomar meu café, ler um livro e ficar em paz.

Sempre fui chamado de feio por ser questionador, por ser largado, por não tolerar ignorância e superficialidade. Hoje sou chamado de feio por andar lendo na rua, tentando adiantar meus diversos afazeres intelectuais nessa vida de proletário. Sou chamado de feio por não ter mestrado, por desprezar a academia como certificadora de que sei de algo. Todo dia sou chamado de feio quando alguém diz que apesar de ser um aborrecimento, gosto de trabalhar, tenho inteligência, algum charme.

Hoje fui chamado de feio porque disse publicamente que amo uma pessoa a qual conheço há alguns meses. Porque digo que amo muita gente, como se amar fosse algo que devesse ser mais exclusivista. Fui chamado de feio por ser pouco carinhoso, quando várias vezes já fui chamado de feio por ser extremamente carinhoso.

Por esses dias, fiquei analisando como pessoas próximas a mim são constantemente chamadas de belas e fiquei pensando que se tentasse agir como elas para ser belo, eu cairia naquilo que Homi Bhabha chama de mímica: eu seria um colonizado imitando um colonizador, um feio imitando um belo. Meus cabelos ou estão grandes demais ou mal cortados, meu corpo não emite cheiros de perfumes fortes, minha roupa está muito surrada, meus olhos não são verdes ou azuis, não sou viril ou sério o suficiente, não sou senso comum ou inteligente o suficiente.

A feiura está estampada em meus gestos e em meu modo de ser. Conversando com um amigo mais cedo, fiquei pensando que em algum momento isso parou de me incomodar. Eu saía sozinho para ir ao cinema e amava a película exibida, que se encaixava dentro de um conceito maior de momentos antes estar em uma cadeira de uma fonoteca ouvindo rock progressivo enquanto lia um romance existencialista. Mas tudo isso era embaçado por uma dúvida cruel: quando eu encontraria a musa existencialista com quem dividiria essas impressões de leitura, essas coisas que me faziam chorar diante da beleza do mundo?

Quando foi que isso parou de ser um questionamento sincero para mim? Não sei ao certo e andando por uma rodovia pela qual andei tanto nessa curta existência, tento precisar o momento sem conseguir. A existência se mostra plena de sentido em sua incompletude. A pessoa me chamando de feio por amar demais me fez pensar nisso. O notebook em que tentei conquistar e ter conversas produtivas por esses anos todos também. Tudo vazio, fragmentado, emprestado. Diante de mim há o futuro agora. Lutas políticas, dinheiro para comprar móveis, minha mãe sendo apoiada, caminhadas, longas caminhadas, livros, filmes, viagens, silêncio, música… Quando eu parei de sonhar com a musa existencialista?

Meus últimos romances foram com pessoas que em nada se parecem com essa imagem criada a partir dos romances de Simone de Beavuoir. Eu tentei amar as pessoas em sua concretude e consegui, mas ao passo que consegui a ilusão da paixão eterna se foi. Amo as pessoas naquele momento, no seu andar e desenrolar em minha existência, no seu passar por mim e voltar quando tiverem vontade, no seu esplendor pessoal mesmo que elas não me mandem mensagens perguntando como estou. Eu as amo pela humanidade contida nelas. Mas esse amor não é formal. Ele vem e vai naturalmente, ele não é mais feito de promessas. Quando ele surgiu? Não sei. Porém meu olhar mudou, sinto isso.

Um dia, pensei em morrer. A feiura era tão estampada em meu rosto que eu não aguentava mais. Andando pela rodovia, pensei que o desejo de viver veio justamente no momento em que todas as coisas belas de minha existência começaram a invadir meu modo de ser e minhas memórias. Sentado em uma praça, olhando uma capa bonita, pensando na piada de um aluno, nas possibilidades espalhadas adiante, na sorte que tive de viver certas coisas, eu realmente não conseguia mais precisar quando o amor morreu e renasceu sobre outra forma. Apenas sei que naquele momento a morte parou de ser fuga e o existir se revelou algo valioso e belo. Porque há tanta beleza nesse mundo que em alguns momentos parece que não vou aguentar e vou sufocar. Há tanta beleza no mundo que morrer se torna algo lamentável. Há tanta beleza no mundo que ser feio deixa de importar, porque meus olhos e ouvidos estão ocupados com outras coisas e a feiura exposta só me causa irritação, hoje, quando me impede de encarar o que há de poético ao meu redor e justifica minha existência.

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Gen e o estranhamento da guerra.

Há uma cena em “Gen, Pés Descalços”, que me fez pensar seriamente no contexto político vivido por nós. Nela, o pai do protagonista diz que é preciso ser muito covarde e, paradoxalmente, corajoso para se criticar a guerra na qual o país estava engajado naquele período histórico. Na região de Hiroshima, onde se passa a história, vemos desde o começo da animação, baseada em mangá autobiográfico de Keiji Nakagawa, a presença constante da fome e da falta de recursos. Mesmo com um clima mais leve na meia hora inicial, já podemos sentir o absurdo da guerra na vida das pessoas comuns, as quais precisam a todo instante dispender um esforço imenso para obter as coisas mais básicas para a sobrevivência.

Em seus diários de guerra, Sartre diz que não sentia a guerra. Ela estava longe dele, trancafiado em um posto de observação meteorológica. A guerra, diz ele ainda, era uma espécie de socialismo militar, pois tudo era coletivo, até mesmo as formas de se fazer as necessidades fisiológicas. Gen e sua família também têm a estranha coletividade da guerra na fome e no desespero da morte iminente. Mas assim como Sartre eles não sentem o conflito, pois os bombardeios nunca chegam a Hiroshima.

No dia em que chegam, é com a tão famigerada bomba atômica lançada pelo avião Enola Gay, em pleno esplendor do raiar do dia. A cena da explosão é uma das coisas mais belas já vistas por mim no cinema e nas animações em geral. Até então, em nível de terror, eu considerava o eclipse criado por Kentaro Miura em “Berserk” como a perfeição do quanto somos frágeis diante de ameaças monstruosas. Mas Miura criou um mundo mítico e fantasmagórico; o de Gen é o nosso mundo, com todas as falhas e esplendor possíveis.

A explosão da bomba gera um total de cem mil morte, mas as consequências oriundas da radiação, até aquele momento pouco ou nada conhecidos pelas pessoas em geral, são devastadoras e a cidade de Hiroshima assume um aspecto similar ao de Racoon City, a cidade onde se passa a história do clássico game Resident Evil. A partir do momento em que a bomba explode, temos uma narrativa mostrando pessoas se arrastando pela cidade na forma de verdadeiros mortos-vivos. O céu encoberto e a chuva preta são elementos que dão um tom ainda maior de desespero ao espectador.

Sem dúvida alguma, a cena mais tocante é a de Gen contemplando a família sendo morta pelo fogo. A resignação da irmã e os gritos de socorro do irmão menor, reclamando do calor cada vez mais intenso, torna tudo ainda mais doloroso de ser visto. A história é feita de modo a focarmos o olhar da mãe e de Gen que se reduzem a duas massas impotentes diante da morte dos entes queridos.

A narrativa é toda focada em Hiroshima. Não vemos em nenhum momento os planos políticos da Segunda Guerra Mundial sendo tratados. O objetivo é claro aqui: fazer com que entendamos o terror da guerra. Mais do que isso é também interessante vermos um elemento da cultura religiosa japonesa muito presente na obra: um certo olhar zen diante das dificuldades e o desejo de recomeçar tudo após uma queda violenta.

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Pode parecer cruel para nós, ocidentais, um garoto e sua mãe quase enlouquecem após a morte pai/marido e filhos/irmãos. Mas há em certas religiões orientais um estoicismo que não é fraqueza diante da realidade e sim o desejo de persistir. Gen demonstra isso diversas vezes no anime quando busca peixe para a mãe desnutrida, comida para a mesma mãe a irmã recém-nascida, leite para a pequena criança, ajuda para um soldado prestes a morrer por conta da radiação, etc.

No terror da guerra, só resta o desejo de sobreviver. O trigo e os cabelos de Gen crescendo são a simbologia máxima desse desejo, dessa persistência. Mais uma vez aqui a obra supera meu mangá favorito, Berserk. Uma das cenas épicas da obra de Miura é a de Gatts, protagonista, matando um demônio lentamente e dizendo que os seres humanos são frágeis sim, mas são acima de tudo fortes pela persistência, pelo desejo de viver, pela vontade de seguir em frente. É um oásis poético de otimismo numa dos mais sombrios que já li. Gen supera Gatts por ser uma figura real, que viveu algo real, um desespero o qual todos nós, talvez, ainda tenhamos de aguentar como possibilidade em um mundo cada mais repleto de tensão.

“Gen” acaba se mostrando uma obra atemporal, pois diante de nós temos mais conflitos matando pessoas inocentes e a bomba atômica virou questão de soberania nacional, como diria o ídolo da direita brasileira Enéas Carneiro. O fascismo enquanto espírito de nosso tempo voltou a dar suas caras sem vergonha e discursos de enfrentamento estão cada vez mais se tornando comuns em nosso país. O mais assustador é que o enfrentamento é muitas vezes contra pessoas de uma mesma comunidade, disfarçados com uma demagogia focada em conceitos como pátria, moral e bons costumes.

O contrário dessa retórica é visto como terrorismo e o terrorismo é geralmente feito por outros que não somos nós. Os islâmicos radicais fazem terrorismo; os comunistas fazem terrorismo. Mas o que foi essa bomba atômica além de mais um dos muitos atentados terroristas feitos por uma grande nação para mostrar seu poder? A guerra ao terror, o abstracionismo concretizado na figura do outro como demônio, não me deixa perceber que eu também faço terror. O que faço é a defesa da liberdade, a defesa da democracia.

A violência simbólica presente em “Gen…” é terrível e o final do filme, com os sobreviventes da família fazendo orações em um barco indica perfeitamente a ideia de ciclo, de resistência. O sol brilhando traz algo de otimismo, mas um otimismo amargo. Décadas depois do lançamento do mangá e de sua adaptação temos a estranha certeza de que as pessoas seguem lutando para viver e sobreviver em um mundo no qual a política as esmaga com seus interesses. O otimismo, nesse contexto, soa como uma estranha piada.

Uma ideia sobre um amor livre.

Uma das muitas ideias que tenho para um futuro livro ou dissertação de algum programa de mestrado, quando a sala de aula e escrever para blogs já não me bastem como realização intelectual, é um trabalho abordando as diferentes escritas do amor de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. Até hoje, eu tive contato com algumas escritas sobre isso dela e dele e já deu para sacar alguns desníveis interessantes.
 
Se nas memórias, Simone vende a imagem de um amor baseado em intelectualidade plena, sem ciúmes e sem erotismo, há nos romances algumas brechas que indicam uma fragilidade na ideia do amor livre dos dois. “A Convidada” é a mais clara exposição em forma de narrativa romanesca das crises de Simone, usando a narrativa de um triângulo amoroso para mostrar como as consciências entram em constante choque consigo mesmas. Mesmo ideologicamente alinhada à ideia de um amor que rompe com as barreiras do amor tradicional, sentimentos como o ciúme ainda são socialmente condicionados e geram o desespero, o qual culmina no desejo de eliminar a consciência invasora.
 
Nas cartas a Nelson Algren, mesmo que de forma sutil, vemos também alguns sinais de sujeição de Simone a Sartre. Uma estadia de vários meses sendo drasticamente reduzida a pedido deste último faz com que Simone se afaste do escritor que provavelmente foi o mais próximo de um amor intenso a ser vivido pela autora. No decorrer dessas cartas, fica muito evidente uma acusação comum de adversário de Simone a ela: a de que amores alternativos eram colocados em segundo plano pelo bem-estar da situação com Sartre e mesmo a autora afirmando que ambos não possuíam mais uma relação carnal ainda há provas de que a ele Simone dedicava considerável devoção.
 
Na escrita de Sartre o exemplo mais curioso é o de diário de guerra, que não é em si um diário, mas uma espécie de esboço a ser lido por Simone de suas ideias, uma espécie de exame de consciência a ser exibido a ela. A própria forma de escrita desses cadernos não é a truncada e realista de um diário comum, mas a romanesca, a autobiográfica, com uma consciência bem desperta de si e usando elementos sistêmicos da filosofia existencialista para se auto entender e meio que garantir uma prova de amor ao Castor.
 
Faltam-me ainda várias leituras de ambos. Por a morte mexer demais comigo, ainda não consegui ler “A Cerimônia do Adeus”; ainda não consegui os diários de Simone, nem a leitura das cartas de Sartre a ela – que achei somente em espanhol na internet. Há também livros sobre os dois, escritos por desafetos ou por biógrafos mais isentos. Então se levar essa ideia adiante, terei de ler e reler muita coisa.
 
Quando decidi escrever sobre “On The Road”, de Jack Kerouac, em meu segundo TCC, eu queria fazer uma espécie de encontro comigo mesmo. Quanto do amor empolgado por Kerouac, surgido em 2008, haveria ainda em mim? Descobri que esse amor havia mudado de forma e agora eu busquei entender as questões existenciais mais profundamente marcadas dentro da obra deste bom autor americano. Minha admiração se revelou agora voltada para o atrevimento seu, radical em diversos pontos, de fazer o novo, de fazer sua vida ser sua obra.
 
Talvez haja dessa neurose em Simone e Sartre, um desejo e retratar suas existências como objeto de literariedade. No meio de seus textos, temos as brechas para a compreensão da problemática seus sentimentos amorosos e libertários, os quais, cada vez mais percebo, não conseguiram se libertar plenamente do desejo de posso tipicamente capitalista. Nesse sentido, quero entender como o seu amor se construiu tendo como pilar o existencialista e como ele se concretizou tendo a todo instante de fazer exames de consciência diante dos valores conservadores.
 
Essa ideia veio com força após lembrar de livro lido recentemente: “Jules & Jim”, de Roché. Nele, talvez a maior força esteja na tentativa de vivenciar uma nova de amor, no pioneirismo sem chance de um companheirismo sem a posse no meio, que cai no fracasso, mas vale pela tentativa em si. Sinto que Sartre e Simone tentaram vivenciar esse pioneirismo e em alguns pontos conseguiram, mas eu gostaria de entender melhor e comparar meu amor empolgado, também nascido ali por 2008, com uma visão mais amadurecida e crítica do processo – não um amadurecimento oriundo de idade e sim de leituras feitas nesses anos todos.
 
Meu primeiro TCC foi sobre letramento em quadrinhos, pois eu devia demais aos quadrinhos por ser um leitor afoito e ativo. Meu segundo foi sobre Kerouac por dever demais a ele os sonhos ainda existentes de vida aventureira e viajante, de escrita frenética e excesso de cafeína. De repente, no futuro, estudando memória e escrita, meu trabalho se volte para Simone e Sartre, pois com eles não consegui mais amar a ideia de acordar todo dia com alguém simplesmente por acordar com esse alguém. É preciso que a pessoa me instigue, leia, questione, sinta na pela a angústia de não saber e querer saber um pouco mais. Por mais que hoje haja algo de romanesco em seu amor para mim, ainda me encantam demais as cenas dos dois discutindo filosofia em um parque qualquer de Paris.
 
De repente, após esse estudo sério, eu comece a ver os dois por outro prisma, por um prisma mais humano e belo, menos ilusório, vendo o amor livre de outra forma, que nem uma moça expressou muito bem texto lido por mim certa vez, no qual ela critica a burocratização do amor, com a gente se negando inclusive a dizer que ama quem amou por apenas uma noite.
 
Veremos.
 
Eu estava precisando mesmo de uma desculpa para reler “O Segundo Sexo” e “O Ser e o Nada”

Esquerda, direita, senso comum e leitura.

Há uma esquerda e uma direita senso comum. Durante muito tempo, fiz parte do que acham que a direita era a detentora exclusiva deste e penso que do lado de lá há vários que pensam a mesma coisa. Mas isso é engano.

A esquerda senso comum julga Anitta e outras do mesmo naipe como as ideológas da revolução. Enquanto isso, a esquerda mais intelectual lê Marx e Lukács para entender as bases de exploração por traz do capital e suas implicações ontológicas e cultivando o realismo mágico de Gabriel García Márquez e Julio Cortázar.

A direita senso comum julga canais do YouTube e Olavo de Carvalho como única fonte válida da defesa do livre mercado. A intelectual está lendo e discutindo Friedman e Mises, Mario Vargas Llosa

Não pensem que quero ser eruditista aqui. Dá para dançar funk, ver vídeos no YouTube e ler sem problema algum. Problema que tem gente que não quer ler, só quer usar vivência e moral para debater.

E a política é um troço tão encantador que dá para ler Marx ouvindo Ramones e folheando Llosa, bem como rebolar ouvindo Vai, malandra após ler as teorias da escolas austríaca e pirando no Cortázar. Tudo é muit amplo.

O que não pode, e vi isso de todos os dois lados nas eleições, é a gente querer lacrar e mitar somente usando a Ludmila, o Roger Moreira e os memes da internet. Do contrário, ficamos presos em nossas bolhas tribais e não há debate político possível algum.

Por mais leitura dos dois lados. Será essa minha militância a partir de hoje. Podem me chamar de isentão.

Notas sobre uma conversa instigante pela manhã com leves doses de rememoração.

Gosto de quem me instiga a ler. Sempre gostei. Uma das sensações mais incríveis do mundo é de falar com alguém sobre diversos temas e ficar mais a fim de ler sobre tais temas. Por esses motivos, gosto tanto de conversar com os alunos, por exemplo pois há questionamentos feitos por eles em seu senso comum que refletem demais grandes reflexões feitas por intelectuais importantes.

Nos últimos tempos, tenho tido a chance de pegar ônibus com meu amigo Jean Carrias para ir ao trabalho.

Hoje em especial falamos sobre duas leituras. Uma é a “Ética”, de Espinosa, que comecei a ler ontem; a outra, “O capital”, de Marx, livro cujo primeiro tomo li recentemente e ele tem vontade de ler. Também discutimos outros assuntos e Jean meio que tem sido um outro indivíduo para dar a mim o exercício do contraponto político.

Quando mais jovens, estudamos juntos por cinco anos em uma escola pública localizada no conjunto Satélite. Jean sempre foi ligado a uma igreja de cunho pentecostal e eu sempre fui bastante agnóstico desde aqueles tempos, mesmo ainda me propondo a frequentar igrejas para entender melhor as escrituras sagradas cristãs. Andávamos cerca de três quilômetros para chegar à escola e eu gostava de fazer esse caminho sozinho, mas também curtia fazer o mesmo andando com meu amigo. Talvez aí tenha surgido em mim a reflexão de que o ser humano livre é aquele que consegue perceber em sua existência diversas possibilidades de prazer, em especial o intelectual.

Andar para a escola sozinho me garantia liberar minha imaginação, organizar meu pensamento, sentir a brisa e o calor no rosto de forma livre. Mas caminhar com Jean era discutir a fundo uma série de temas que nós, jovens demais ainda, já discutíamos com afinco. Nessas últimas conversas no ônibus meio que revivi esse prazer, entendendo uma lição básica de minha adolescência: o debate de ideias é sempre muito salutar e talvez a ferramenta pedagógica mais importante de todas.

Na viagem de viagem de hoje, ficou evidente que nós estamos em um mesmo campo político, a social democracia. Todavia, sei das tendências mais cristãs de Jean e ele sabe das minhas mãos ateias. Ainda assim, ficou muito claro em nosso diálogo e nos outros dos tempos recentes a possibilidade de entendimento e esclarecimento por meio da visão do outro que nos serve de interlocutor.

Penso que um bom debate de ideias é como uma bom copo de café, ajudando-nos a libertar o fluxo de nosso pensamento. Dialogar com esse meu amigo me fez sentir vontade de ler um monte de outras coisas, de estudar mais as escrituras sagradas, de ler textos de filosofia clássica e de buscar estudar mais a base de discursos que são opostos e nem tão opostos assim aos meus.

Conhecimento é liberdade e vida realmente.

O Estado laico não é estado ateu.

Muitos confundem a defesa do Estado laico com o Estado ateu por, grosso modo, o Estado laico não ter crença. Mas o ateísmo é uma crença: uma crença de que antes e depois da existência há o nada, de que nosso sentido existencial deve ser feito por nós a cada momento. Mas tudo isso é crença e não tenho como provar a não existência do Deus cristão ao final de meus dias.
 
A União Soviética teve um Estado ateu e isso culminou em diversas perseguições religiosas. Na cegueira coletiva de exaltação do comunismo stalinista, toda obra de arte deveria servir de culto ao grande pai, o qual assumiu nessa visão dogmática de um sistema político a figura encarnada de um salvador. Um Estado ateu assume uma espécie de teocracia sem Deus, levando ao absurdo a frase de Marx de que a religião é o ópio do povo, por ser cura para suas dores, transcendência dentro de um mundo limitado.
 
Marx não critica a crença em um ser superior e sim o modo como essa crença pode ser utilizada por determinadas figuras para obtenção de poder político. Nesse sentido, o Estado laico é um Estado que deve garantir a todas as crenças religiosas o direito de existir, de ter espaços de culto respeitados, de livre manifestação, desde que sem imposição e demonização do outro. O Estado laico não tem crença, porque abarca todas, protege todas, desde a pessoa que vai a uma procissão para render glórias à mãe de Deus até o cara que não acredita em nada, passando pela pessoa que entra em contato com entidades como orixás ou pessoas de outro plano.
 
Quando um Estado assume crença, de forma velada ou não, acaba nas entrelinhas assumindo que sua crença é a correta e as demais crenças deixam de ser um contraponto entre pensamentos diferentes para se tornar um contraponto entre o bem e o mal. Nasce então o fundamentalismo, quando o outro, o diferente, soa como absurdo, como ofensa à ordem estabelecida das coisas. Muitas vezes, por conta de meu ateísmo, tive de encarar olhares de reprovação e de espanto e eu mesmo, quando criança, disparei olhares assim.
 
Tive de frequentar igrejas evangélicas, missas, reuniões budistas e espíritas para entender que as crenças são algo muito plural e subjetivo e que o contato entre elas deve ser profícuo, dinâmico e profundo. Avaliando as diferenças entre elas podemos entender melhor os elementos em comum e muitas das vezes temos um verdadeiro deleite poético buscando entender como esta ou aquela pessoa busca a sua paz espiritual.
 
Em mim o ateísmo não é uma revolta contra os crentes. Se assim fosse, eu também correria o risco de ser um fundamentalista, afinal ateísmo é crença e fundamentalismo é querer que minha crença seja a Verdade. O ateísmo em mim é simplesmente uma crença e uma crença aberta a entender as escrituras sagradas e textos religiosos de diversas crenças e entender como as pessoas são afetadas por esse tipo de leitura.
 
O Estado laico nesse sentido é uma bandeira que defendo por amor à beleza da existência humana em seus diversos prismas. Defendo a laicidade como quem defende a miscigenação de nosso povo, mas sem esquecer os conflitos presentes nesse processo de mistura para que fiquemos conscientes de que de tais conflitos deve surgir o máximo de harmonia social possível. Crença não define bondade ou maldade e sim um elemento da pessoalidade de cada um de nós e como cada aspecto da pessoa humana me encanta, espero poder lidar com todos eles diariamente.
 
Penso ser somente possível isso dentro do regime da laicidade, do respeito pleno a todas as crenças, com todas coexistindo trocando ideias e tendo debate saudáveis, sem se verem a si mesmas como anjos imaculados de defeitos e os outros como projeções de demonizações.
 
PS: texto dedicado aos ex colegas de trabalho Paulo Sérgio e Hamilton Jeremias, cujo certo debate ocorrido em meados de dezembro de 2015, ainda em meus tempos de Vera Lúcia, fez-me gerar essas reflexões. Foi uma experiência interessante ver dois teólogos de duas visões diferentes tendo uma conversa rica daquelas.

Liberdade em forma de sorriso.

Eu a conheci logo depois de ler “Gabriela, cravo e canela”, de Jorge Amado, uma obra clichê que eu não havia lido até então. Estava na festa de aniversário de uma conhecida e fui apresentado àquela moça, com quem não pude trocar tantas palavras naquele dia. Jovem, mas não tão jovem quanto os jovens presentes na festa, coisa de 18/20 anos, senti em seu comportamento um tom de liberdade que não via na maioria dos jovens e mesmo adultos que me rodeavam então.
Talvez seja porque a maioria dos guris e das gurias querem apenas a liberdade sem saber ao certo como a mesma é um fundamento político e existencial no rumo de uma mudança social. Jovens querem ser livres porque querem ser, mas não sabem ao certo o que querem ser. Apenas contrapõem sua postura ao discurso repressivo dos pais.
Cheguei por essa época à conclusão de que serei um bom pai se ensinar uma criança a fazer exatamente aquilo que prezo pela liberdade. A leitura, em especial, porque ela garante a clarividência conceitual que realmente nos liberta das amarras do senso comum.
Algo me fazia ver naquela moça uma liberdade diferente da maioria dos jovens, inclusive daquele que fui e não pode ser plenamente enquanto criatura livre. Com o passar dos meses, passei a ter chances de dialogar com ela e entendi finalmente que há em sua personalidade uma convicção que me remete a mim mesmo quando no fim da primeira juventude, mas sem poder viver aquilo, por ser desprovido de graça e beleza e condições materiais.
Fui educado nos escritos da boemia. Henry Miller e Milan Kundera primeiro, depois Sartre e Simone, foram os escritores que me mostraram os prazeres de entrar em contato com diversos corpos, mentes e universos. Achava elegante os estilos de vida repletos de aventura que se mesclam à literatura e criam uma espécie de moral da liberdade baseada no absurdo do existir e no prazer nele presente.
Mas filho de família pobre não podia viver isso a não ser em contos mal escritos e que andam em gavetas por aí e nas leituras que fazia então. Não que eu não saísse. Saía, mas sozinho, para cinemas e caminhadas no centro da cidade, após horas passadas em uma biblioteca pública pegando livros e mais livros para me manter sempre aceso. Olympia, CCBEU, IAP e Líbero Luxardo eram espaços de repouso e de encantamento que me faziam ter algo da liberdade que eu gostaria de ter em minha rotina de maneira constante.
Vendo aquela garota dançar naquela noite, lembrei-me que meses antes eu entrara no funcionalismo público e julgava que agora eu conseguiria viver mais intensamente o que eu vivi em meus tempos de adulto nascente. Mas logo comecei a me preocupar demais nas horas de sono e nas parcelas da casa e sinto que hoje o dinheiro mal dá para fechar o mês. Praticamente tenho ido apenas ao trabalho e à academia e por sorte sempre há gente nesses dois espaços, garantindo alguma interação.
Muito tempo de vê-la dançando alegremente numa festa e de começar a conversar com ela sobre diversos temas políticos, ela me pediu livros emprestados. Aproveitei o ensejo de ser seu aniversário e lhe dei três de presente. Um deles, “Gabriela”, personagem cuja essência de ser e aparência rebelde e doce sempre me remeteram à jovem amiga. Simone e Chico foram os outros dois autores com os quais lhe agraciei.
Despedindo-me dela após a compra dos livros e algum tempo de prosa fiquei pensando nessa liberdade que julguei ter visto em seu ser quando a vi pela primeira vez, uma liberdade que veio sufocada em muita gente jovem que daqui a pouco pode ficar enrolada demais com as parcelas da casa. Feliz por ter dado livros a alguém especial, eu fiquei refletindo depois quando será que conseguirei ter aquela liberdade boemia, aventureira, que os romances de minha adolescência me ensinaram a amar e vejo nosso sorriso de uma jovem livre.

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